Figura 5 – Detalhe do processo de fabricação do case por impressão 3D do tipo FDM, evidenciando a deposição de camadas e o padrão de preenchimento interno, utilizando filamento ABS

Impressão 3D como estratégia de adaptação tecnológica: um relato de experiência sobre reorganização de mídias de armazenamento

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1. Introdução

A impressão 3D, também conhecida como manufatura aditiva, tem se consolidado como uma tecnologia relevante não apenas no contexto industrial, mas também no ensino superior tecnológico, onde sua aplicação favorece a integração entre teoria e prática. A possibilidade de projetar e fabricar soluções personalizadas torna essa tecnologia especialmente adequada para a resolução de problemas reais, frequentemente presentes em ambientes acadêmicos, laboratoriais e profissionais.

No contexto da evolução das tecnologias de armazenamento digital, há uma rápida obsolescência de mídias ópticas, como CDs e DVDs. Embora essas mídias tenham sido usadas por décadas, sua substituição por dispositivos de maior capacidade e menor espaço físico, como HDs, SSDs ou armazenamento em nuvem, não elimina automaticamente a infraestrutura física relacionada. A Figura 1 mostra um exemplo dessa situação, onde armários destinados a mídias ópticas continuam ocupando espaço, mesmo com a mudança tecnológica.

Figura 1 – Armário originalmente projetado para armazenamento de mídias ópticas (CDs e DVDs), evidenciando a elevada ocupação de espaço físico e o contexto de obsolescência dessas mídias no ambiente de trabalho do autor (Fonte: De autoria própria)

Figura 1 – Armário originalmente projetado para armazenamento de mídias ópticas (CDs e DVDs), evidenciando a elevada ocupação de espaço físico e o contexto de obsolescência dessas mídias no ambiente de trabalho do autor. 

2. Contexto da experiência

A experiência relatada insere-se no contexto da atuação docente em cursos superiores de tecnologia, tanto na engenharia quanto nas áreas de tecnologia da informação, nos quais a abordagem prática constitui elemento central do processo de ensino-aprendizagem. O ambiente em questão é um escritório utilizado tanto para atividades profissionais de engenharia quanto para experimentações relacionadas ao ensino, preparado para extensão informal do laboratório acadêmico. O escritório também é utilizado como ambiente para aulas virtuais.

As mídias ópticas, como CDs e DVDs, já são amplamente consideradas obsoletas, enquanto os discos rígidos (HDs), embora ainda funcionais, estão em processo gradual de substituição por novas tecnologias de armazenamento, como as unidades de estado sólido (SSDs). Esse cenário resulta na permanência de um grande volume de HDs antigos, que, apesar de operacionais, passam a ser subutilizados com as mudanças tecnológicas.

Para avaliar a confiabilidade e o estado de funcionamento dessas unidades, utiliza-se o recurso conhecido como SMART (Self-Monitoring, Analysis and Reporting Technology), um sistema embarcado em HDs e SSDs que monitora parâmetros críticos de operação com o objetivo de antecipar falhas e reduzir o risco de perda de dados. Mesmo quando os indicadores SMART apontam condições adequadas de funcionamento, muitos HDs acabam sendo descartados por sua percepção como tecnologia ultrapassada.

Esse processo evidencia que a obsolescência, nesse contexto, não está necessariamente associada à perda de funcionalidade ou segurança no armazenamento, mas sim à evolução das tecnologias e às mudanças nos critérios de uso e organização dos dispositivos de armazenamento digital. Com a descontinuação das mídias ópticas, todo o acervo digital anteriormente armazenado em CDs e DVDs foi migrado para HDs antigos e SSDs, ambos com tecnologia SATA (serial), que possuem conexão mais fácil do que a antiga conexão IDE (paralela). Esses dispositivos passaram a ser acessados por meio de um equipamento de hardware conhecido como dock station. Ele acessa HDs e SSDs como se fossem cartuchos removíveis, reduzindo significativamente o volume físico necessário para o armazenamento dos dados. Entretanto, surgiu um novo problema: a inexistência de um local destinado para armazenar HDs fora de operação, concomitantemente à disponibilidade de armários originalmente destinados aos CDs.

3. Descrição da experiência

Como etapa inicial, buscou-se validar empiricamente a viabilidade dimensional do reaproveitamento das prateleiras existentes. Para isso, foi realizado um ensaio preliminar utilizando uma caixa acrílica padrão de CD (jewel case), na qual um HD de 3,5” foi fixado com abraçadeiras plásticas. Esse procedimento permitiu verificar o encaixe nas prateleiras e avaliar a estabilidade do conjunto, conforme apresentado na Figura 2.

Figura 2 – Ensaio preliminar de validação dimensional utilizando caixa acrílica padrão para CD (jewel case) e abraçadeiras plásticas, empregado para verificar a viabilidade de armazenamento de um HD de 3,5” nas prateleiras originalmente destinadas a mídias ópticas (Fonte: De autoria própria)

Figura 3 – Modelo tridimensional do suporte para HD de 3,5”, desenvolvido em ambiente CAD (SolidWorks), com dimensões compatíveis às caixas padrão de CD de áudio

Com a viabilidade dimensional confirmada, iniciou-se a etapa de projeto assistido por computador. Com o uso do software SolidWorks, foram desenvolvidos dois modelos distintos de cases: um destinado a HDs de 3,5” e outro voltado a SSDs ou Mini HDs de 2,5”. Ambos os projetos mantêm as mesmas dimensões externas correspondentes às caixas padrão de CD de áudio, diferenciando-se apenas na altura e nos elementos internos de fixação, conforme ilustrado nas Figuras 3 e 4.

Figura 3 – Modelo tridimensional do suporte para HD de 3,5”, desenvolvido em ambiente CAD (SolidWorks), com dimensões compatíveis às caixas padrão de CD de áudio (Fonte: De autoria própria)
Figura 3 – Modelo tridimensional do suporte para HD de 3,5”, desenvolvido em ambiente CAD (SolidWorks), com dimensões compatíveis às caixas padrão de CD de áudio

Figura 4 – Modelo tridimensional do suporte para SSD ou Mini HD (2,5”), desenvolvido em ambiente CAD (SolidWorks), mantendo as mesmas restrições dimensionais externas do suporte para HD (Fonte: De autoria própria)

Figura 4 – Modelo tridimensional do suporte para SSD ou Mini HD (2,5”), desenvolvido em ambiente CAD (SolidWorks), mantendo as mesmas restrições dimensionais externas do suporte para HD

A fabricação das peças foi realizada por meio de impressão 3D do tipo FDM, com filamento ABS. A Figura 5 apresenta um detalhe do processo de fabricação, evidenciando a deposição de camadas e o padrão de preenchimento interno adotado.

Figura 5 – Detalhe do processo de fabricação do case por impressão 3D do tipo FDM, evidenciando a deposição de camadas e o padrão de preenchimento interno, utilizando filamento ABS (Fonte: De autoria própria)

Figura 5 – Detalhe do processo de fabricação do case por impressão 3D do tipo FDM, evidenciando a deposição de camadas e o padrão de preenchimento interno, utilizando filamento ABS

 

4. Análise e reflexões

Os cases fabricados foram inicialmente avaliados por meio de comparação dimensional direta com caixas acrílicas padrão de CD. A Figura 6 apresenta o case para HD impresso em 3D, com o dispositivo montado, posicionado sobre uma caixa de CD para fins de validação dimensional. Observa-se a equivalência em largura e profundidade, confirmando a compatibilidade com as prateleiras existentes.

Figura 6 – Case para HD de 3,5” fabricado por impressão 3D em ABS, com o dispositivo montado, posicionado sobre uma caixa acrílica padrão de CD para fins de comparação dimensional (Fonte: De autoria própria)

Figura 6 – Case para HD de 3,5” fabricado por impressão 3D em ABS, com o dispositivo montado, posicionado sobre uma caixa acrílica padrão de CD para fins de comparação dimensional

As Figuras 7 e 8 apresentam os cases para SSD e para HD com os dispositivos devidamente montados e evidenciam a adequada fixação mecânica e facilidade de manuseio.

Figura 7 – Case impresso em 3D para SSD de 2,5”, com o dispositivo devidamente montado, mantendo compatibilidade dimensional com caixas padrão de CD de áudio (Fonte: De autoria própria)

Figura 7 – Case impresso em 3D para SSD de 2,5”, com o dispositivo devidamente montado, mantendo compatibilidade dimensional com caixas padrão de CD de áudio

 
Figura 8 – Case impresso em 3D para HD de 3,5”, com o dispositivo montado, evidenciando a adaptação dimensional e a fixação mecânica adequada (Fonte: De autoria própria)
Figura 8 – Case impresso em 3D para HD de 3,5”, com o dispositivo montado, evidenciando a adaptação dimensional e a fixação mecânica adequada.

A aplicação em uso real é apresentada na Figura 9, que demonstra os cases organizados nas prateleiras originalmente destinadas a CDs, evidenciando a reorganização completa do espaço físico sem necessidade de modificações estruturais.

Figura 9 – Cases impressos em 3D contendo HDs e SSDs armazenados em prateleiras originalmente destinadas a caixas de CD de áudio (Fonte: De autoria própria)

Figura 9 – Cases impressos em 3D contendo HDs e SSDs armazenados em prateleiras originalmente destinadas a caixas de CD de áudio.

Do ponto de vista pedagógico, a experiência revelou-se particularmente rica, pois percorreu todas as etapas de um processo de engenharia: identificação do problema, ensaio preliminar, projeto, fabricação e validação. Essa abordagem é facilmente transponível para atividades didáticas em disciplinas relacionadas a CAD, manufatura aditiva e projeto de sistemas físicos.

5. Considerações finais

O relato apresentado demonstra que a impressão 3D pode ser utilizada de forma eficaz como ferramenta de adaptação tecnológica e como instrumento pedagógico no ensino superior. A reutilização de armários originalmente destinados a mídias ópticas, aliada ao desenvolvimento de cases personalizados para HDs e SSDs, resultou em uma solução funcional, de baixo custo e facilmente replicável.

Mais do que a solução técnica em si, a experiência evidencia o potencial da impressão 3D para aproximar o ensino de problemas reais, estimulando o pensamento crítico, a autonomia e a integração entre teoria e prática. Conclui-se que práticas dessa natureza contribuem significativamente para a formação tecnológica contemporânea e para o reaproveitamento consciente de recursos existentes.

6. Conclusão

A experiência descrita neste texto surgiu a partir de um problema bastante concreto: a necessidade de reorganizar fisicamente mídias de armazenamento em um ambiente que havia sido projetado para tecnologias hoje obsoletas. Ao longo do processo, a impressão 3D mostrou-se não apenas uma ferramenta de prototipagem, mas uma solução prática e definitiva para adaptar a infraestrutura existente às demandas atuais.

O desenvolvimento dos cases para HDs e SSDs evidenciou como a combinação entre modelagem em CAD, manufatura aditiva e testes empíricos pode resultar em soluções funcionais, de baixo custo e altamente personalizadas. A validação dimensional, a escolha do material de impressão e a aplicação em uso real demonstraram que é possível reaproveitar armários originalmente destinados a CDs e DVDs sem qualquer modificação estrutural, apenas repensando a forma como os dispositivos são organizados.

Mais do que o objeto final, o processo em si foi o aspecto mais relevante dessa experiência. A passagem por etapas como ensaio preliminar, projeto, fabricação e validação reflete exatamente o tipo de abordagem que busco estimular em sala de aula: enfrentar problemas reais, testar hipóteses, ajustar soluções e aprender com as limitações do processo. Nesse sentido, a impressão 3D deixa de ser apenas uma tecnologia emergente e passa a ocupar um papel central como ferramenta de aprendizagem e inovação aplicada.

Por fim, essa experiência reforça a ideia de que pequenas intervenções técnicas, quando bem fundamentadas, podem gerar impactos significativos na organização, no uso do espaço e na forma como lidamos com a evolução tecnológica. A proposta apresentada não se encerra aqui: ela abre espaço para melhorias futuras, variações de projeto e, principalmente, para novas aplicações que integrem tecnologia, criatividade e prática pedagógica.

Referências

  • CERUZZI, P. E. A History of Modern Computing. Cambridge: MIT Press, 2003.
  • GIBSON, I.; ROSEN, D.; STUCKER, B. Additive Manufacturing Technologies. New York: Springer, 2015.
  • NGO, T. D. et al. Additive manufacturing (3D printing): A review of materials, methods, applications, and challenges. Composites Part B, v. 143, p. 172–196, 2018.